A catarse da escrita

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O grande filósofo grego Aristóteles dizia que catarse significa “limpeza da alma”. E, claro, não é à toa que este é o método usado pela psicanálise para eliminar as perturbações. O método não se define de maneira tão simplória, obviamente, mas para o objetivo desse artigo, saber o que significa catarse já nos leva para o próximo parágrafo com as ideias mais organizadas.

Sim, escrever é uma catarse. E das grandes. Das muito grandes.

Desde muito jovem, sempre tive dificuldade para falar sobre meus sentimentos e sobre as coisas que me amofinam. Na adolescência, que já é naturalmente uma fase conturbada, de inúmeras descobertas e desmedidos conflitos, falar sobre o que eu sentia estava simplesmente fora de questão.

Eu não gostava, não sabia, não queria. Mas os meus conflitos da pré-adolescência e adolescência levaram minha mãe a me enfiar em uma terapia que eu não desejava. Falar com uma psicóloga? MEUDEUS! Era o fim do mundo.

Como o “destino” é competente, não é? Fui forçada, mas aquele tempo foi essencial na minha formação como pessoa e, especialmente, como escritora.

Até hoje tenho uma certa dificuldade em organizar as ideias de maneira efetiva na hora de falar. O que não acontece, na maioria das vezes, quando resolvo escrever. Pois na adolescência me entendia muito menos com os pensamentos que se avergonhavam em sair pela fala e se embolavam dentro de mim, pedindo desesperadamente para que eu não lhes desse som.

Depois de alguns encontros infrutíferos com a analista, resolvi experimentar algo com o que eu tinha grande afinidade: a caneta. E, aí, a coisa fluiu. Passei até a gostar da terapia. E da terapeuta. Toda vez que tínhamos um encontro, eu escrevia para ela aquilo que não conseguia expressar por meio da fala. Aquele tempo me fez desejar escrever e expressar no papel a pessoa que eu “estava”. Por meio da escrita, pedi ajuda, chorei minhas dores, desabafei meus conflitos, descrevi meus desafios e descobri meu primeiro desejo, aliás, minha primeira necessidade: escrever. Era como se somente no papel eu pudesse ser inteira.

Minha catarse iniciou-se verdadeiramente há muitos anos, foi pausada durante o período em que tentei caminhar por uma profissão que não me agradava, e retornou agora por meio das histórias que tenho dividido com meus amigos e leitores.

Sim, escrever é uma catarse, pois é contar para o mundo quem somos, o que sabemos, o que queremos, para onde vamos e até onde podemos chegar, mesmo que esse “onde” esteja nas diversas possibilidades, no infinito de quem realmente somos. Escrever é doar-se a si mesmo, aos outros, ao mundo. E, enfim, ler-se e compreender-se. Um autodescobrimento, sem dúvida. Pois que em nossas histórias revivemos perturbações que afetaram nosso psiquismo, momentos que provocaram nossos erros e motivaram nossos acertos, que geraram tensões, angústia, medo. Colocamos os dois olhos bem abertos sobre as lembranças saudáveis, as lições que aprendemos com o exemplo de nossos pais, nossa estrutura familiar (ou a falta dela), nossas aspirações materiais, psicológicas, espirituais. Revivemos na escrita as batalhas internas que travamos para contruir castelos de areia que ruíram com a alta da maré ou com a força das tempestades. E percebemos as construções que resistiram ao tempo, a nós.

Escrever é uma grande e controlada provocação para que quem escreve se encha de uma força tremenda fazendo-o explosão emocional, permitindo-lhe conceber um livro. Um filho, uma versão de si próprio.

Nessa catarse provocada quase inconscientemente, nós, que ousamos rabiscar para o leitor um pouco de nosso mundo interno, criamos mitos, ídolos, novos padrões, muitos vilões. Nessa organização do mundo interior, concebemos a magia, a fantasia, a realidade. De posse do produto dessa nossa “purificação”, dessa nossa auto-estruturação, nossos leitores sonham, mal sabendo o quanto se envolvem conosco, o quanto levam de nós.

E é por isso que preciso confessar para você que me lê que, nesse início de caminhada literária e depois de publicar dois livros, estou mudada. E estou mudando. Conflitos? Ainda tenho muitos, mas incrivelmente dançam em uma bagunça organizada, dentro de um mundo que eu sequer sabia que existia em mim.

Termino esse post com um agradecimento à pessoa que me leu pelas primeiras vezes e que disse, talvez sem noção, “escreva mais” nas muitas terapias por muitas e muitas folhas rabiscadas de caderno. E é por isso que cá estou na minha “limpeza da alma”, contínua e necessária, organizando-me mais e mais a cada linha escrita.

Nessa catarse que me limpa, reescrevo minha vida e a conto, sempre, um pouquinho para você!

Leia-me à vontade. A janela está aberta!


 

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4 comentários para A catarse da escrita

  • luiz aurelio leite  diz:

    Não tenho dificuldade para falar, mas já percebi algo meio esquisito. Quando escrevo muito e por um bom período eu falo com menos desembaraço. E vice versa.

    Difícil é fazer as duas coisas com igual fluidez.

    • camilaguerra  diz:

      Olá, Luiz!
      A escrita tem o dom de organizar o caos dentro da gente. Mesmo quem se expressa verbalmente com desenvoltura, pode tirar proveito dessa “ferramenta”. Boa escrita vem com a prática, mas especialmente, vem com a vontade de manifestar-se e com a coragem de mostrar-se. Imagino que seja duas áreas de estímulo do cérebro que, se desenvolvidas juntas, se complementam e aceleram a “organização” dos nossos sentimentos.
      Obrigada pela visita! 🙂
      []’s

  • Inácio Fantino  diz:

    Sempre me chamou atenção essa premissa de Aristóteles – tão bem referida pela autora, aqui: a da depuração do espírito, através da catarse.
    Até onde sei, Aristóteles até afirmou que o principal objetivo da arte era a purificação da alma (se bem me lembro do que li em “Ética a Nicômaco”), referindo ainda que o belo era tudo o quanto agradasse à alma, em sua essência…
    Então, resumo: o texto é belo e ajuda a gente a entender um pouco mais das riquezas que a literatura nos traz.

    • camilaguerra  diz:

      Obrigada, Inácio!
      É sempre um prazer receber seus comentários instrutivos. 🙂
      []’s

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